Mensagem do Provedor
Meus amigos,
Caros Irmãos da Santa Casa da Misericórdia de Sintra,
Minhas Senhoras e Meus Senhores,
Assumo hoje esta responsabilidade de estar em Provedor, sublinhando precisamente isso: estar em Provedor.
Ninguém é dono de um lugar. Ninguém se apropria de uma função que existe para servir.
Estou aqui por missão, por sentido de responsabilidade e por vontade de contribuir. Disponibilizei-me quando o mais fácil seria ficar de fora, mas digo e repito: fi-lo de forma convicta, consciente da exigência do cargo, mas também da importância de servir esta Instituição com humildade, dedicação e espírito de entrega.
Sejamos todos capazes de nos revestirmos com as vestes da humildade, da dedicação e da entrega, com um profundo sentido de missão e de compromisso para com a Santa Casa da Misericórdia de Sintra, os seus utentes e colaboradores.
As tentações do exercício da responsabilidade
Permitam-me recordar as palavras da mensagem de felicitações que me dirigiu Sua Excelência Reverendíssima, o Senhor Bispo Auxiliar de Lisboa, D. Rui Gouveia, que, por se encontrar a orientar um retiro na Madeira, não pôde estar hoje presente nesta cerimónia.
Neste lugar podemos ter duas tentações, porque somos todos filhos de Adão e todos passamos por isso.
A tentação do poder
A primeira tentação é o deslumbre pelo poder.
A resposta torna-se evidente: todas as decisões serão fruto de uma escuta ativa, aberta e livre de todos, todos, todos, e não apenas de algumas partes.
Serão igualmente resultado de um discernimento consciente, fiel aos princípios do Evangelho, mantendo a fé vivida em Igreja e procurando nela a força necessária para exercer, com humildade e espírito de serviço, a missão para a qual fui chamado.
A tentação dos interesses
A segunda tentação será o tráfego de interesses.
Terei apenas um único interesse: servir os mais necessitados, na verdade e em comunhão com todos os que dão vida a este corpo que é a Santa Casa da Misericórdia de Sintra.
Procurarei agir sempre com transparência nas decisões, justiça nas avaliações e criatividade na procura de soluções que reforcem a sustentabilidade da Instituição e lhe assegurem um futuro sólido ao serviço da comunidade.
Rejeito e rejeitarei, com firmeza e determinação, todos os interesses particulares ou de fação, bem como quaisquer iniciativas obscuras, ambíguas ou subversivas que tenham como propósito dividir, enfraquecer ou desviar a Instituição da sua missão.
A nossa prioridade será sempre a unidade, o bem comum e o serviço aos mais vulneráveis, excluídos ou descartados.
Uma missão de reconciliação e transformação
O nosso propósito é liderar um processo de reconciliação, transparência e transformação, orientado para a recuperação da confiança interna e externa e para o reforço da sustentabilidade financeira, organizacional e da missão da nossa Instituição, fundada pela Rainha D. Catarina, esposa de D. João III, conforme carta régia e alvará de 23 e 24 de setembro de 1545.
Importa reconhecer que a verdadeira transformação não resulta apenas de boas ideias.
Resulta, acima de tudo, de pessoas comprometidas, corresponsáveis e unidas por um propósito comum: servir quem mais precisa.
É por isso que queremos voltar a construir uma cultura de confiança, participação e responsabilidade partilhada, onde cada colaborador, cada irmão e cada voluntário se sinta parte integrante deste caminho.
Quatro dimensões para a mudança
O programa de transformação que hoje iniciamos será estruturado em quatro dimensões fundamentais:
- Compreender onde estamos;
- Definir para onde queremos ir;
- Determinar como lá chegaremos;
- Garantir a concretização efetiva e sustentável das medidas assumidas.
Este processo permitirá dispor de uma visão objetiva e rigorosa da estrutura organizacional da Instituição, criando as condições necessárias para otimizar os recursos humanos, clarificar responsabilidades, eliminar redundâncias e reorganizar os serviços, sempre em alinhamento com os princípios da eficiência, da sustentabilidade, da qualidade e do impacto da intervenção social.
Seremos exigentes na transparência do ponto de partida, porque não existe transformação séria sem um diagnóstico rigoroso, participado e assente no conhecimento da realidade.
Um compromisso com a boa governação
A Mesa Administrativa que hoje toma posse tem de assumir o compromisso de exercer uma gestão baseada na idoneidade, na integridade, na transparência, no rigor e na credibilidade.
Uma gestão orientada para o serviço às pessoas, às famílias e às comunidades mais necessitadas do concelho de Sintra, garantindo respostas sociais de assistência, proteção e cuidado, reconhecendo a pessoa humana na sua dignidade e integridade, como prática concreta da missão da Misericórdia.
Estou certo de que a Assembleia Geral e o Definitório exercerão, com rigor e sentido de responsabilidade, as competências que lhes estão confiadas, acompanhando e fiscalizando a atuação da Mesa Administrativa, garantindo que a gestão da Instituição será pautada pelo rigor, pela transparência e pelo integral cumprimento do Compromisso, da lei e dos princípios católicos que regem a missão da Santa Casa da Misericórdia de Sintra.
Porque sem confiança não existe missão. Sem confiança não existe sustentabilidade.
E sem confiança não existe futuro.
Uma Santa Casa mais participada
Esta missão exige também um maior envolvimento de todos os Irmãos na vida da Instituição.
Queremos uma Santa Casa mais participada, mais próxima e mais aberta, onde todos possam contribuir ativamente para o seu futuro.
Precisamos que todos remem para o mesmo lado, para chegarmos a bom porto.
O desafio que temos pela frente é exigente, mas representa também uma oportunidade única:
- Equilibrar as contas;
- Consolidar resultados;
- Regularizar compromissos financeiros;
- Restaurar a confiança;
- Fortalecer a Instituição;
- Preparar a Santa Casa da Misericórdia de Sintra para servir melhor as gerações presentes e futuras.
Uma nova etapa
Hoje não iniciamos apenas um novo mandato.
Iniciamos uma nova etapa.
Uma etapa em que queremos virar a página, reconciliar a Instituição consigo própria e com a comunidade, mas também promover um processo de reconciliação pessoal.
Precisamos de reforçar a sua credibilidade.
E devolver-lhe toda a capacidade para cumprir a missão que lhe foi confiada há séculos.
Este será um caminho que só poderá ser percorrido com todos.
Contamos com os trabalhadores, com os Irmãos, com os voluntários, com os parceiros, com as entidades públicas e privadas e com toda a comunidade sintrense.
Porque a Santa Casa da Misericórdia de Sintra é património de todos.
Uma palavra de gratidão
Permitam-me uma palavra muito especial para a minha mãe, aqui presente, para o meu pai, que hoje recordo com saudade e que, acredito, está junto de Deus, para a minha esposa, os meus filhos e todos os familiares que nos honram com a sua presença.
Sei que assumir esta missão significa, inevitavelmente, abdicar de muitos momentos em família, de tempo que não volta atrás e de uma presença que nem sempre será a desejada.
A quem está ao meu lado nos dias mais fáceis, mas sobretudo nos mais difíceis, deixo o meu mais profundo agradecimento pela compreensão, pelo apoio incondicional e pela força que me dão para continuar.
Se hoje assumo este compromisso com serenidade e determinação, é porque sei que nunca caminho sozinho.
E é juntos, com união, transparência e espírito de serviço, que construiremos um futuro mais sólido, mais digno e mais fiel aos valores da Misericórdia.
Quero expressar um agradecimento muito especial a todos os funcionários que estiveram envolvidos na preparação desta cerimónia.
A vossa dedicação, disponibilidade e incansável empenho tornaram possível este momento que hoje vivemos.
O meu sincero e profundo obrigado.
O futuro começa hoje
O futuro da Misericórdia de Sintra começa hoje.
E começa com todos nós.
Contamos convosco.
Muito obrigado.
Sintra, 8 de julho , de 2026